Das memórias da terra

Enquanto trabalhadores negros escavam a terra, não posso parar de me questionar

Foto: Matheus Alves/Reprodução 

Na memória, a cena era assim: nosso uno velho de guerra tropicando pelas estradas, ora asfaltadas, ora de terra batida. Ao redor, morros se erguiam por detrás de morros e a flor branca da cana estremecia com o vento, pendendo sempre numa mesma direção. E as histórias dos avós, nascidos ou criados em paragens como aquelas, adicionando outras imagens.

A imagem do meu avô levando a marmita do seu pai, meu bisavô, que trabalhava numa olaria. A imagem dos seus dez irmãos, quase todos debaixo de um mesmo teto, para desespero de minha bisavó. Saíam para caçar passarinho, com um badoque. Quem acertasse, tinha de levar o bicho morto para casa: se cozinhava e se dividia entre todos. “Oxe, como dividia entre dez pessoas um único passarinho?”, “Vixe, um passarinho só não dá pra nada.” Depois meu avô acrescentava, para nos provocar: “eu tinha muito medo de morrer. Muito medo de não comer mais feijão com farinha.” Enquanto nós, os netos, ríamos, ele suspirava tranquilo e discreto: “era luta”.

A imagem da minha avó, aos seis, sete anos, no meio da mata, procurando algo com que inventar o de-comer. Os irmãos mais novos choramingando de fome. Então surge uma bananeira, com um cacho todo verde. Brandindo um impossível facão, vovó derruba o cacho e, com a ajuda das outras crianças, o arrasta de volta para casa. Deu farinha para o mingau. Quando os pais chegaram do canavial, surpreendentemente não havia apenas café para enganar o bucho. Encheram a menina de cheiro.

Em Recife, meu avô concluiu o ensino fundamental e o ensino médio na escola de cadetes da polícia militar. Conseguira passar no concurso para soldado com a ajuda do meu pai, que às vésperas o ensinava a resolver problemas de matemática da oitava série. Minha avó demorou mais a estudar: aos oito, nove anos, eu a ajudava a soletrar palavras de três sílabas ou mais. “Estou aprendendo a ler porque um dia eu quero escrever a minha história”, dizia. E depois, me ensinando a ver mais que o “engraçado”, o “inusitado” e o “aventureiro”, mais do que histórias individuais, ela acrescentava: “a minha história é um pouco da história do Brasil”.

Há alguns dias, a imagem de uma obra que viralizou na internet me levou novamente ao cenário dos passeios de infância, das histórias dos avós. Trata-se de “Diva”, uma imensa vulva escavada na Usina das Artes, em Água Preta, Pernambuco, na propriedade onde décadas atrás funcionava a Usina de açúcar Santa Terezinha. Segundo a autora, Juliana Notari, a obra dimensiona a vulva como uma ferida, discutindo – e desafiando – o regime de poder patriarcal.

Questionada sobre a repercussão das fotos da montagem, na qual aparece inspecionando a execução enquanto, ao fundo, homens negros escavam o terreno, a autora disse estar em harmonia com a equipe, mas admitiu que as imagens reafirmam um processo de trabalho marcado pela diferença de classe e raça. Entende que “poderia ter tido mais cuidado”. Ao mesmo tempo, observa que “é preciso ter cautela na hora de relacionar isso com a obra. A imagem extrapola o campo da arte e entra no contexto do que é o Brasil.”

Não me somo às críticas que situam a obra enquanto degradação ambiental, nem enquanto uma representação transfóbica. Menos ainda me escandalizo com a imensa imagem de uma vulva. Gostaria, no entanto, de interpelar a obra e seu contexto pensando a partir das ideias de corpo-território, corpo-documento e poder colonial. Gostaria de interpelá-las porque me provocam um incômodo que fala da história do Brasil, composta pela história da minha família, dos meus avós, mas também de milhares e milhares de outras trabalhadoras e trabalhadores rurais, em Pernambuco, na Paraíba, em Alagoas, na Bahia… em paragens que os limites de uma geografia oficial não conseguem descosturar.

A história do Brasil, como sabemos, está intimamente ligada à construção de uma zona da mata canavieira, cujas imensas plantations estruturaram relações políticas, econômicas e sociais. Durante décadas, engenhos de açúcar garantiram o sucesso econômico da empreitada colonial moendo cana – que adoçava o paladar europeu – e gente – indígenas assassinados e expulsos de suas terras, africanos traficados para um continente estranho, para trabalhar à exaustão e viver uma não-vida, segundo os planos senhoriais.

Forjou-se assim um pacto social que nós muito mais do que herdamos: atualizamos diariamente. O território, e toda a sua dimensão de vida e de sacralidade, seria negado aos indígenas, cuja população decrescia década após década de investida genocida. Africanos e seus descendentes não teriam melhor sorte sobre a terra que absorveu seu sangue e seu suor. Anos depois da abolição oficial da escravidão, foi esse mesmo regime de negação de vida e cidadania que deu as condições de possibilidade do trabalho rural no Brasil. Crianças, adultos e idosos sendo levados à exaustão, sem direito ao mínimo existencial, crescendo desnutridos e doentes, enfrentando uma expectativa de vida-trabalho baixíssima.

Sei pouco sobre a Usina Santa Terezinha. Mas não é irrazoável pensar que talvez minha vó tenha passado por ali, na vida um pouco nômade que era forçada a ter porque afinal a terra tinha dono. A edição do Diário de Pernambuco de 1º de janeiro de 1932, logo em sua capa, nos informa que a Usina Santa Terezinha S.A. é “a mais moderna fabrica de assucar de Pernambuco”. Além dos detalhes de sua produção em escala, informa-se que é garantida assistência social para seus “operários”, assim como assistência médica, pronto socorro, seguridade. Fala-se em barateamento da vida do “proletário” com a construção de quatro grandes barracões que vendem insumos a preço de custo – venda esta que, garante-se, não visa o lucro. Diz-se, ainda, que há incentivo ao espírito associativo e garantia do ensino básico e técnico às famílias.

Não sei se assim, de fato, as coisas transcorriam – embora tenha meus motivos para desconfiar. Não sei se, diferente da minha avó e sua família, os trabalhadores do engenho puderam comer regularmente, estudar e ter condições de vida minimamente dignas. Não sei. Seria necessária uma longa pesquisa nos arquivos que talvez existam por aí para saber.

Mas o que significar reabilitar (para usar o termo bastante preciso de Marcos Queiroz*) uma antiga Usina de Açúcar com um projeto artístico e socioambiental sem fazer qualquer menção a esse contexto, econômico, político, social e cultural? No meio do canavial, abrir-se uma nova página em branco – ou em verde – para celebrar “harmonicamente” um novo futuro? Um futuro que flutua sem fazer menção ao seu passado, como se um barco – talvez um tumbeiro – surgisse no meio do oceano, ao estalar de dedos de uma vontade divina aventureira: rumo às novidades. Com sete ou nove voltas em torno da Árvore do Esquecimento , toda uma tripulação (acorrentada?) é parida de um oco da história.

Esta é, como deve estar evidente, uma provocação sobre lugares de memória e as razões que nos levam a evitá-los a qualquer custo. E já não sei se estou em Água Preta, na “Usina das Artes”; em Recife, em alguma rua ou instituição de Casa Forte nomeada para homenagear Gilberto Freyre ou Joaquim Nabuco; no Rio de Janeiro, confusa entre o Cais do Valongo e o Museu do Amanhã; ou até mesmo em Boston, assistindo a grita em torno da possível derrubada de mais uma estátua escravista. Talvez esteja em algum Museu que “promove” arte e história e cumprimenta a nós negros, apologeticamente, com uma placa preta: Black Lives Matter – enquanto silenciosamente demite funcionários negros .

Talvez esteja em todos esses lugares, nessa conexão a um só tempo afetiva e brutal que significa os espaços da diáspora africana. Em todos esses lugares, memória corporificada da terra pilhada, dos direitos e da cidadania negada.

Uma vulva-ferida-aberta pode representar algumas dimensões da violência de gênero. Mas quais foram as mulheres cujo corpo-território, cujo corpo-documento (para pensar com Beatriz Nascimento) foi violentado, ali mesmo, no meio do canavial, para que famílias inteiras, brancas e senhoriais, florescessem, sonhassem futuros como páginas vazias: o olho sempre para frente, porque para trás é passado e o passado… passou! Em ferros-velhos, depósitos e lojas de objetos usados encontram-se peças que ressignificamos à imagem e semelhança de nossa própria experiência. E a mais perfeita vitória de Narciso é medir o mundo a partir da abstração de seu próprio espelho.

“Minha história é um pouco da história do Brasil”, minha vó me explicou. Não por vaidade, mas por consciência de si e do mundo que a cerca. Muitas e muitas décadas atrás, minha tataravó, de quem tanto eu, quanto vovó somos herdeiras, foi uma mulher indígena “achada no meio da mata” e levada para viver com um homem que eu não conheci e que, provavelmente, ela também não. Sua vulva é uma ferida aberta. Pesquisa recente sobre a herança genética brasileira confirma o que vovó já havia sentenciado: quantos de nós somos filhas e filhos de mulheres negras e indígenas vilipendiadas – sobretudo por velhos coronéis e senhores de terras? Minha tia-avó, mãe de criação de minha avó, pariu um de seus filhos à beira da estrada de terra, de madrugada, no meio da chuva, enquanto a família fugia da tirania de um coronel que os enxotou de onde viviam. Sua vulva é uma ferida aberta.

Enquanto trabalhadores negros escavam a terra, não posso parar de me questionar: quem é diva? Nossas linhagens, negras e indígenas, testemunham muito mais a paranoia e o fetichismo branco sobre o corpo de uma “vênus hotentote”. Enquanto trabalhadores negros escavam, não posso parar de pensar: quais ravinas, feridas profundas, nosso corpo-território, nosso corpo-documento, alvo do poder colonial, não testemunha? Enquanto trabalhadores negros escavam a terra, anônimos diante da imensidão com a qual se encena, a um só tempo, o apagamento da história territorializada e a crítica do corpo abstrato, não posso parar de me perguntar: como se distribuem os dividendos do fomento à arte, à cultura e à imaginação de um futuro renovado?

*Professor do IDP e doutorando no PPGD/UnB, amigo a quem agradeço, junto a Marília Montenegro, Emília Joana e Iago Masciel, também membros do PPGD/UnB, a discussão e contribuição com esse texto e essas reflexões.

Referências:
<https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/01/quem-e-a-artista-que-abriu-uma-vulva-gigante-num-canavial-e-viralizou-nas-redes.shtml>

<https://artishockrevista.com/2020/07/13/museos-protestas-black-lives-matter>

<https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2020/09/estudo-com-1200-genomas-mapeia-diversidade-da-populacao-brasileira.shtml>


Fernanda Lima

26 de janeiro de 2021