Juan

Um conto para a coluna Jogando em Casa

Ilustração: Fabrizia Posada

Finalmente, eu estava sozinha em Los Angeles. Eu havia sido contratada para trabalhar em uma grife na cidade durante meu último trimestre de intercâmbio e meus pais quiseram me auxiliar na transição de Nova York até a costa oposta — meu pai me buscou no aeroporto com um Beetle alugado e minha mãe nos guiou até a kitnet que havia reservado em Koreatown, num prediozinho de três andares e sem elevador, que dividimos durante um mês. Dali, levava dez minutos para chegar no estágio, quinze para chegar no centro e, num dia sem engarrafamento, em meia hora eu estaria na praia. No entanto, no meu primeiro sábado de independência, decidi que não sairia do apartamento. Liguei o ar-condicionado e mexi no computador, toquei violão, vi televisão. Até que, quando confidenciei minha decisão eremítica a um bom amigo que estava no Brasil, ele exigiu que eu procurasse alguma coisa pra fazer. Agora.

Assim que escureceu, vesti uma roupa interessante, calcei minhas botas vazadas da moda e me maquiei — a partir daquele momento eu não poderia mais voltar atrás, ou teria desperdiçado meu batom caro. Eu já havia feito duas amigas no estágio, mas não liguei para nenhuma delas. Naquela noite eu me provaria uma mulher autossuficiente, capaz de aproveitar uma noitada sem precisar da companhia de ninguém. Perguntei ao Google o que tinha de bom acontecendo na cidade e ele me indicou o Viper Room, uma boate em West Hollywood. Achei chique. Pedi meu Uber.

Eu sempre escolhia a modalidade Uber Pool, a mais barata de todas, que abria a possibilidade de dividir o trajeto com pessoas que estivessem indo para a mesma direção que eu. As corridas até o estágio eram sempre individuais, tanto por causa do horário quanto pela preguiça dos condutores de sair para buscar alguém no meio do viaduto que conectava o meu bairro até o setor industrial, mas isso não acontecia nos finais de semana. Às noves horas da noite, no centro de Los Angeles, era uma questão de tempo até que aparecesse o chamado de um segundo passageiro. Sendo assim, pouco depois de me buscar, o motorista avisou que precisaria parar. Ele desviou para o acostamento e um cara de cavanhaque entrou pela porta de trás. Seu nome era Juan.

Juan puxou assunto com o motorista, contou que era de Madri e que tinha acabado de sair de uma aula do mestrado. Depois, perguntou de onde eu era.

“Ah, Rio de Janeiro!”, disse o motorista. “Eu queria mesmo descobrir de onde era o seu sotaque.”

“O sotaque dela é ok, considerando que o português que ela fala é do Brasil.”

“O que você quer dizer com isso?”, questionei.

“O de Portugal é muito mais legal.”

“Acho o português do Brasil mais bonito”, interveio o motorista, sorrindo para mim pelo retrovisor.

“Bonito mesmo é o espanhol que eles falam na Argentina,” provoquei. Juan me lançou um olhar ácido, mas divertido.

“Ei, Rio, estamos nos aproximando do seu destino. Te deixo em seguida, tudo bem, Juan?”

“Sem problemas! Meu único compromisso hoje é com a minha cama.”

“Vai passar o sábado em casa, Juan?”, o motorista lamentou.

Um impulso passou tão rápido pelo meu cérebro que não consegui segurá-lo dentro da boca: “Por que você não vem comigo?”

Alguns minutos depois, lá estava eu no bar lotado do Viper Room, com Juan ao meu lado.

Peguei minha cerveja com o barman e me afastei. Observei o espanhol: ele não era muito mais alto que eu e vestia uma camisa xadrez desabotoada sobre uma camiseta branca, calças jeans e sapatênis pretos. Eu deveria tê-lo encorajado a ir embora quando o segurança o barrou por não ter dez dólares em dinheiro para pagar a entrada — “fica pra próxima, Juanito, me passa o seu número e garanto a você que nunca vou ligar” —, mas tinha um caixa vinte e quatro horas ali perto e Juan não achou um problema pagar os 2,50 da taxa de saque. Por que diabos eu pensei que seria uma boa ideia convidá-lo para se juntar a mim? E se ele fosse inconveniente? E se achasse que eu tinha segundas intenções? Ele nem era bonito.

“Qual banda que vai tocar aqui, mesmo?”, perguntou com o rosto próximo demais do meu.

“Dorothy”, respondi sem olhá-lo nos olhos.

“É boa?”

“Pelo que eu vi, tem uma pegada de blues, tipo Aerosmith.”

“Você gosta de Aerosmith?”

“Bastante.”

“Joe Perry é o cara.”

Juan e eu tínhamos algumas coisas em comum, afinal. Fiquei sabendo que ele também era intercambista e que descendia da mesma região que meus antepassados viveram na Espanha. Até me arrisquei no portunhol, mas não entendi nada quando ele começou a falar no ritmo nativo e tivemos que nos contentar com o inglês.

“Uau, ela é sexy!”, ele gritou quando a cantora subiu no palco.

“É mesmo!”, suspirei, aliviada. Não parecia o tipo de coisa que ele diria caso tivesse planos de dar em cima de mim.

Junto com minha segunda cerveja, o show acabou. O baterista seminu andou até a frente do palco e arremessou suas baquetas para o público. A segunda caiu aos pés de Juan, que a entregou para mim. “Eis aqui o totem da noite”. Notando a plateia que se dissipava ao nosso redor, ele acrescentou: “Esse lugar está morrendo. Topa fazer outra coisa?”

Saímos da boate e avistamos uma limusine estacionada do outro lado da rua. Atravessamos correndo e me aproximei do automóvel, emocionada, pois nunca havia chegado tão perto de um do tipo. O motorista, um homem baixinho e grisalho, se aproximou sacudindo os braços, “tô no meio do expediente, moça”. Juan cutucou o homem. “Ei, amigo, você gosta de rock?” O homem se animou e seu humor escalonava conforme listava os astros que já tinha avistado de longe pela cidade. “Pois você não vai acreditar”, o espanhol alardeou, “acabamos de encontrar o baterista do Aerosmith. Ele gostou tanto de nós que nos deu uma baqueta.” Pouco depois, Juan e eu seguimos pela Hollywood Boulevard, sorridentes, comparando os retratos que havíamos tirado no interior da limusine. O totem teve que ser deixado para trás.

Avançamos na direção de uma casinha branca com telhado marrom que, de acordo com o letreiro pintado nas cores do arco-íris, chamava-se Rainbow Bar. Pensei que encontraria uma clientela semelhante à dos bares LGBTQ+ que frequentava no Brooklyn com meus colegas da faculdade, mas fui pega de surpresa por homenzarrões de meia-idade vestindo coletes de moto clubes espalhados sobre cadeiras de plástico. Alguns tinham os cabelos presos em rabos de cavalo, outros usavam óculos escuros mesmo que estivesse de noite e todos ostentavam bigodes felpudos. Senti os olhos de um motoqueiro loiro, de pele rosada, grudarem em mim conforme eu seguia Juan bar adentro, mas fingi que não havia notado. Vi uma escadinha próxima ao bar. “O que tem lá em cima?”, perguntei a uma garçonete, e ela disse que era uma área reservada. Quando ela se afastou, Juan subiu aos pulinhos e eu fui atrás dele.

O espaço era pequeno e estava vazio. Havia um grupo de pessoas na varanda, mas sua euforia era tanta que ninguém notou a nossa invasão. Sentei no bar com Juan e ele pediu uma bebida. Caso eu tivesse me iniciado na arte da degustação de destilados antes de deixar minha terra natal, talvez já tivesse me deparado com um ou outro Cuba Libre, drink que, nos Estados Unidos, era conhecido como Rum & Coke. Experimentei o de Juan. Aquela era a bebida ideal para satisfazer ao meu paladar infantil, já que a doçura da coca-cola disfarçava perigosamente o sabor do rum; com duas pedras de gelo, então, tornava-se um elixir irresistível. Pedi que o barman preparasse um igual para mim.

Conversa vai, conversa vem, Juan comentou que iria a um show de uma banda cover de Queen dali a algumas semanas e que eu não poderia deixar de me juntar a ele e seus amigos. Inclusive, disse que, certa vez, os mesmos amigos o haviam levado a um lugar muito legal chamado Library Bar, e propôs que fossemos para lá. Topei fazer as duas coisas. Ele pegou o celular para chamar um Uber e aproveitou a deixa para pedir o meu número. Ao sairmos, temi avistar o motoqueiro cor-de-rosa, mas, felizmente, não o encontrei em lugar algum. Talvez tivesse se retirado para abastecer as energias antes de me alcançar mais tarde, nos meus pesadelos.

O tal do Library Bar era exatamente o que o título sugeria. Havia estantes de livros por todos os lados, assim como alguns sofás de couro e mesinhas redondas iluminadas por lâmpadas de baixa intensidade. O ambiente devia ser aconchegante durante o dia, mas a noite o transformava em um dos pontos mais badalados de Downtown L.A., ou seja, numa lata de sardinha. Tive que acompanhar Juan numa distância que beirava os limites da minha área de respiro pessoal e, antes de chegarmos ao balcão, ele parou junto a uma estante. Puxou um livro qualquer e folheou. “É de verdade, tá vendo?” Ele leu o título na lombada puída e fez um bico. “Quando estive aqui, encontramos ‘O Retrato de Dorian Gray’. Meu amigo levou pra casa dele, mas prometeu que vai me emprestar assim que terminar de ler.” Ele estava prestes a esconder o objeto debaixo da camisa quando um brutamontes de terno se aproximou, encarando como se pudesse sentá-lo na porrada ali mesmo. Juan devolveu o livro à estante com um movimento ligeiro e retomou a rota original. Algumas engrenagens começaram a girar na minha cabeça: será que Juan fazia parte de uma quadrilha de ladrões de livros no mesmo planeta em que, algumas horas atrás, havíamos caído nas graças de um músico famoso?

Juan avisou que precisava ir ao banheiro. Esperei perto do bar, guardando o Rum & Coke que ele havia pedido enquanto sugava o meu avidamente pelo canudinho. Mantive a vista ocupada, fazendo o possível para evitar trocas de olhares com desconhecidos que pudessem confundir a coincidência com um convite. Não deu certo. Um homem surgiu na minha visão periférica e, dada a certeza com que caminhava na minha direção, me fez pensar que se tratasse de algum dos 5 exemplares do sexo masculino que eu conhecia na cidade. Ele era pequeno, tinha uma argola pendurada na orelha e sobrancelhas intensas, como as que um duende teria. Eu disse “sorry, não entendo inglês”, mas ele me respondeu em espanhol. Era uma determinação de se admirar; talvez ele só quisesse voltar para casa com uma história sobre a vez em que se aventurou entre seres humanos. Me assustei com uma movimentação abrupta do meu lado, mas era apenas Juan, que havia ajoelhado para amarrar os sapatênis e já se levantava. “Meu namorado chegou, bye”, falei ao homenzinho enquanto me afastava com Juan enganchado pelo braço. Tendo alcançado uma distância segura, puxei meu membro de volta e torci para que a intimidade do gesto não lhe tivesse despertado pensamentos salientes.

Chegando na outra ponta do bar, Juan clamou entusiasticamente por dois Rum & Cokes. Falei que já havia gastado demais, mas ele disse “não se preocupe, eu pago pra você”, e ergueu uma nota de cinquenta dólares. Estranhei a generosidade, mas, de graça, vai até um tablete de manteiga empanada. Competimos para ver quem terminava o drink mais rápido e eu ganhei. Juan pediu mais uma rodada e propôs melhor de três. O que ele queria, me embebedar? Antes de dar o primeiro gole, ele tascou uma coçada agressiva no nariz seguida por duas coçadelas discretas. Logo depois, voltou ao banheiro. Aquilo não poderia ser normal. O que estaria lhe tomando tanto tempo lá dentro, número dois ou cheirar um? Terminei a bebida numa velocidade ainda menor que o anterior, então, aconteceu algo extraordinário: uma faceta da minha consciência que, até aquele momento, nunca me havia sido apresentada, veio à tona. Aquela persona insólita tomou as rédeas das minhas funções motoras enquanto o resto dos meus neurônios boiava nas piscinas turvas do álcool, acessando todos os fragmentos de juízo disponíveis na minha essência. Eis o que ela fez:

Pontualmente às duas da manhã, o Library Bar colocou todo mundo para fora e ela vagou com Juan pelas ruas em busca de um estabelecimento que ainda estivesse funcionando. Encontraram um lugar guardado por um segurança notavelmente careca que cobrou 15 dólares para deixá-los passar. Ela não precisou mover um músculo, já que Juan estava se mostrando muitíssimo abastado. Entraram numa boate escura e ampla, com vários andares. Dançarinas em trajes reveladores rebolavam em gaiolas a muitos metros de altura, rodeadas por homens vidrados em suas performances sedutoras. Onde estavam as outras mulheres daquele lugar? Ela olhou de um lado para o outro, mas não parecia haver nenhuma. Será que Juan conhecia aquela boate? Teria ele frequentado aquele lugar com camaradas que não cobiçavam livros caquéticos, mas rins?

Ela correu para o banheiro. Até que enfim, altas concentrações de estrogênio. Ela conferiu a aparência no espelho — o batom já havia saído, mas o aspecto do rímel estava OK — e enrolou por um ou dois minutos antes de retornar para o núcleo do caos. Do lado de fora, duas escadas levavam para baixo, ou será que uma levava para cima? Ela pisou os degraus com cuidado e desviou dos homens que se arrastavam por ali como enguias. Procurava por um cavanhaque familiar. Sentiu um par de olhos grudarem na sua nuca e virou-se de uma vez, com o coração na boca. Pensou que encontraria o motoqueiro rosado, mas era apenas Juan. Mais Rum & Coke? Não, cruz credo. É preciso saber a hora de parar.

Um telão mostrava explosões de cores atrás da mesa do DJ, que parecia minúsculo em comparação à estrutura de onde comandava a trilha sonora do local. Ela não conseguiu identificar que estilo de música estava tocando; seria dance, house ou techno? Era música para quem estava a fim de fritação, mas ela não sentia fome. Deveria, pois fazia muito tempo desde a última vez que havia comido. Seria prudente fritar um ovo quando voltasse para casa. Parece o que jogo virou, não é mesmo?

A verdade era que, mesmo para uma mente embriagada, aquela festa estava um saco. Juan não havia arriscado investidas enquanto ela estava bêbada e muito menos enquanto estava sóbria, mas só o tempo seria capaz de provar sua lealdade. Além do mais, ela estava ficando com sono e oferta nenhuma a convenceria a ficar, fosse uma garrafa de dois litros de guaraná ou um set de bateria completo assinado pelo Neil Peart. Avisou Juan que iria embora e pediu um Uber antes que o espanhol tivesse tempo de questionar sua decisão.

Ela fez um esforço sobre-humano para se manter acordada durante o trajeto até o apartamento; papeou com o motorista sobre arquitetura, comida chinesa e Maomé. Quando enfim chegou à porta, olhou para os lados e colocou a chave na fechadura com uma destreza surpreendente. Cambaleou até o apartamento e encheu a banheira com dois palmos de água morna. Lembrou que, muitas horas antes, havia tomado a péssima decisão de calçar suas lindas botas sem usar meias — para não estragar o look —, mas agora seus pés estavam repletos de bolhas estouradas. A sensação da água tocando na carne viva foi incrível.

Ela estava exausta, mas feliz: havia conhecido vários lugares quentes da vida noturna, caminhado sobre as estrelas da calçada da fama e feito um novo amigo. E, pelo menos durante algumas horas, havia se esquecido de pensar nele.


Fabrizia Posada

12 de novembro de 2020