O caçador de pássaros

Um conto para a coluna Jogando em casa

Foto: dangquangn/Reprodução com alterações

Todos os dias era a mesma coisa: às cinco da tarde passava na casa da vizinha, que me encomendava pãezinhos. Guardava no bolso os dois dinheiros que ela me dava para a compra. Descia a rua até chegar na amendoeira e virava à esquerda no sentido da padaria, cujo cheiro já se sentia. Era tudo muito perto mas eu era pequena; cumprir a tarefa de ir sozinha a algum lugar era uma grande aventura e eu a vivenciava com a solenidade de um rito de passagem.

Durante o dia a rua era asfalto e crianças. A velocidade do mundo produzia a ilusão de que o tempo estava em suspenso, só para a gente brincar. Eu não tinha consciência, e nem as meninas e meninos que povoavam aquele pequeno pedaço de mundo, mas a cada passo que dávamos para fora dos muros de nossas casas derramávamos nossa infância.

Eu não sabia muito bem por qual motivo não podia ir até a rua de cima, ainda que algumas das minhas amigas circulassem tranquilamente pelo bairro. A proibição fez sentido quando um dia eu e minha mãe, passando por lá, avistamos a poucos passos um homem sentado na calçada. Ele tinha os olhos vermelhos, cerrados, e uma expressão de quem tinha interrompido uma gargalhada. Minha mãe reduziu o passo e apertou meus dedos em sua mão. Entendi que ela queria me dizer algo e a encarei. Escutei-a sussurrar que não o cumprimentasse de forma alguma, mesmo se ele assim o fizesse, e que não o olhasse diretamente. Ela só falava comigo naquele tom quando a gente ia atravessar uma rua movimentada ou para dizer que eu não deveria aceitar doces de estranhos. Naquele dia, incluí no meu inventário de perigos os homens de olhos vermelhos sentados na calçada.

No final do ano ganhei uma bicicleta nova. A rua era sinuosa, tornando irresistível a tentação de descê-la tirando os pés dos pedais. Eu flutuava como uma ave em cima das duas rodas, desafiando as leis da gravidade, até o trecho onde ela ia se tornando mais plana, quando eu retomava o controle, voltando a pedalar. Me sentia cada vez mais séria. Agora parecia fazer sentido ficar mais tempo perambulando, afinal eu tinha ficado mais velha. Subir e descer aperfeiçoando meu jeito de flanar por aí era solitário mas eu sentia que crescer era isso.

Às vezes parava para descansar na sombra da amendoeira. Numa tarde, distraída, não percebi a noite. Assustei-me quando me vi na rua escura e vazia e com o pressentimento do perigo ainda sem nome, o coração aos pulos, pedalei de forma acelerada e com a sensação de que patinava no mesmo lugar. Dava para ver o muro da minha casa, mas parecia que levaria horas para conseguir alcançar. Consegui impor um ritmo às pedaladas e a paisagem conhecida, agora filtrada pelas sombras da noite, era mais um componente para aumentar o meu medo: as janelas das casas eram olhos fechados, os arbustos ao longo das calçadas dançavam como se zombassem de mim. Senti a aterradora presença da solidão. Apavorada, me desequilibrei, caí e ralei os joelhos, que ficaram em carne viva, mas só percebi depois, anestesiada pelo pânico.

Levantei do chão, e lembro que o sangue escorria pelos tornozelos, quando vi os olhos vermelhos se destacando na escuridão. Paramos. Nos encaramos. Enquanto tentava pensar de forma racional, comecei a empurrar lentamente a bicicleta. Andando em minha direção bem devagar, como se estivesse cercando um bichinho, ele perguntou: “Viu passarinhos? Ali no lixão tem uma gaiola aberta. Acho que eles fugiram.”

“Estou indo para minha casa.”

“Eu sei onde você mora.” Falou, mostrando dentes. E depois, com espanto, disse “olha lá, passarinhos na árvore! Vou pegar um para você.” E seguiu em direção à amendoeira.

Apressei o passo, mas olhando para trás, sem perdê-lo de vista. Imaginei que ele havia conseguido pegar, pois fazia uma concha com as mãos.

“Meu pai não deixa a gente ter bichos”, falei alto já abrindo o portão de casa e ainda deu tempo de escutar sua voz, emocionada e aparvalhada:

“Tenho medo de machucar…é tão bonito!”


Daniela Valverde

11 de fevereiro de 2021