O ponto preto na parede

Um conto para a coluna Jogando em Casa

Imagem: blende12/Reprodução com alterações

 

Como está sua perna?”

Horrível.”

E o estômago?”

Parece que comi uma bola de futebol.”

A imagem, projetada numa TV com 50 polegadas, parecia real. Ruth vestia o pijama preferido, guardado para ocasiões especiais, a exemplo essa, como se fosse a própria Grace Kelly. Jonas, o namorado, usava a mesma cueca do dia anterior, mas, ei, ninguém precisa saber.

– A mulher mais linda do mundo e pronto. Não tem pra ninguém. – cravou Ruth enquanto dava a mordida final no que havia sido uma enorme barra de chocolate.

– Mais do que as grandes divas? Lauren? Audrey? Jennifer Lawrence? – contra argumentou Jonas.

– E eu? Onde eu fico nesse ranking? – retrucou Ruth, fingindo-se de ofendida.

– Meu amor, você é hors-concours.

– Finge que me engana!

Ruth sentiu-se arrepiar com um toque gelado na perna. Logo seus mamilos enrijeceram. Jonas pediu que ela virasse. Quando o fez, Ruth descobriu que a cueca dele já tinha saído de cena.

– Agora não, tá no meio do filme. – disse sem acreditar em si mesma.

– Quantas vezes você viu isso? – respondeu Jonas inquieto – É domingo, vai. Pra gente dormir melhor.

O apelo surtiu efeito. Ruth tirou a blusa, expondo os seios. A calcinha foi embora na mesma velocidade. Ela abriu as pernas e suas próprias mãos encontraram o púbis cavernoso. A cabeça pendeu para trás, os olhos fecharam. De repente, um baque.

– Cadê você? Não estou te vendo! – clamou Jonas.

Ruth tinha derrubado o tablet. Pegou-o do chão. O membro duro do namorado, localizado a quilômetros de distância, ocupava toda a tela. Voltaram ao sexo virtual enquanto o filme rolava, desta vez sem plateia.

Quando o prazer se transformou em meros lenços de papel usados, o casal, cada um na sua casa, viu o que restou da película. Despediram-se carinhosamente. Ruth passou pelo pequeno apartamento de dois cômodos distintos, quarto e sala separados sem paredes, vizinhos à cozinha em estilo americano. Ela posicionou o artefato eletrônico, com capa de corujinhas dançantes, ao lado de outro igualzinho, este de couro e com uma inscrição em letras douradas: King Farmacêutica.

Dormiu em seguida.

 

SEGUNDA

O homem de perna quebrada via de binóculos a moça na praia, a morena, de cabelo preto, estavam no México?, a mesma mulher se arrastava num pântano lodoso dentro do apartamento do outro lado do mundo, pedir uma pizza pelo computador, aquelas mãos todas saindo das paredes, a loira paranoica tinha o rosto dela, o meu rosto.

Foi quando a música suave invadiu o quarto/sala, o volume subindo aos poucos. De dentro do pesado edredom, surgiu Ruth, tonta. Tinha sonhos vívidos demais, alguns pareciam até mesmo lembranças que não eram dela. Uma voz genérica a situou.

Bom dia, Ruth. Temperatura: 20 graus. Máxima de 25 no decorrer do dia. Hoje é segunda, 29 de maio. São 6:40 da manhã. Tempo até a próxima tarefa, 17 minutos

– Obrigado, Pandora. Ligue a TV, por favor. – pediu ainda sonolenta.

Da sala, não muito distante da cama, apareceu a imagem nefasta.

E eu faço um apelo aos meus eleitores: não se deixem levar pela sanha desse vírus e de todos que o usam…”

– Desligue! – ordenou com irritação.

Feito.

– Ninguém merece esse homem destilando merda a essa hora da manhã.

Falar sozinha, ou com os eletrônicos, mais do que um hábito era questão de sobrevivência.

Levantou-se.

– Pandora, café, forte. Abrir cortinas. Elevar temperatura, 22 graus.

Certo”, a voz genérica vinha de um triângulo de plástico. Uma luz azul piscava na velocidade em que uma pessoa respira enquanto conversa.

Ruth catou o tablet pessoal da mesa, aquele das corujinhas, e levou-o ao banheiro a fim de realizar o imediato: xixi, banho e cuidados de pele. Pandora estaria distraída com os afazeres domésticos.

Saiu pouco tempo depois, de roupão, cabelo enrolado na toalha, o cheiro de café inundando o minúsculo apartamento. Pegou a xícara da máquina automática e foi olhar pela janela. Maio era seu mês do ano preferido. O clima ameno deixava tudo muito iluminado. Vinha junto um friozinho aprazível, do jeito que ela gostava.

Como sempre, o condomínio estava totalmente vazio. Se as árvores não estivessem tão bem aparadas, as flores tão coloridas e o chão tão limpo, poderia até pensar que o mundo já tinha acabado e só restou ela e Pandora. Mas sabia que as engrenagens funcionavam mesmo era longe dos olhares curiosos.

Avistava outros condomínios iguais ao seu, inclusive com o mesmo símbolo instalado no topo dos prédios, cabeças de alfinetes em um antigo mapa-múndi. Tudo parecia excessivamente uniforme, blocado. Apenas o som metalizado das aves cortava o silêncio.

– Pandora, quanto tempo para começar?

46 minutos

Saia lápis, meia calça, sapato alto, blusa de seda branca, cabelo num coque, jaqueta de linho, olho levemente delineado, blush discreto, rosa claro nos lábios. A coroa dourada num alfinete preso à lapela.

30 segundos

Sentada em frente ao computador, Ruth sorriu para o próprio reflexo.

São exatamente 8h30

– Obrigada, Pandora. Descansar.

A tela do enorme computador acendeu automaticamente. Ruth digitou login e senha enquanto ajeitava o microfone e os fones de ouvido acoplados. Uma coroa rodopiava como descanso de tela. Ao lado da estação de trabalho, o tablet com capa de couro também ligava.

– Centro de Desenvolvimento e Pesquisas King Farmacêutica, bom dia, meu nome é Ruth, como posso ajudar?

Só parou às 12h30 em ponto. Não porque quisesse, poderia até continuar, mas a regra era interromper o expediente naquele exato horário e as regras existiam para serem cumpridas, principalmente agora nesse nada admirável mundo novo.

Assim como ontem, anteontem e o dia anterior, Ruth ouviu um som ritmado, quase militar, algo como uma linha de montagens de fábrica. O pacote chegou. Sua porta ficou iluminada de vermelho. Ruth esperou, como fazíamos antigamente na fila do mercado. Enquanto isso, calçou luvas descartáveis. O sinal mudou para verde. Abriu a porta. A marmita de metal estava no capacho. Cheirava a álcool. Todo dia a mesma coisa. Pegou o vasilhame, jogou as luvas no lixo embaixo da pia enquanto tentava, de longe, identificar o falatório no tablet das corujinhas.

– Não comecem sem mim! – gritou aparentemente para o nada.

Novamente a postos, fone no ouvido, salada quente de quinoa, garfo descartável, aquele refrigerante que curava os problemas do mundo.

– Anda logo! Ou não teremos tempo! – soou a voz esganiçada de Clara.

– Conta, qual o nome dele, pelo amor de Deus? – falou Ruth para a tela.

O visor mostrava outras seis mulheres, de idades, cores de cabelos e tons de pele diferentes, vestidas à mesma maneira de Ruth, em animada conferência.

Já com o prato vazio, Ruth tomava o que sobrou do gelo pelo canudo. A janela número cinco piscou, chamando a atenção de todas.

– Dez para as duas, meninas, está na hora de irmos. Antes que “ela” chegue aí acabando com a festa. – pediu Natália.

Todas se entreolharam, virtualmente, com pesar. “Ela”, no caso, era Dona Hermione, a chefe de relações públicas e governamentais da empresa. Um doce às vistas do público geral, um estorvo para as subordinadas. “Que chefe não é assim?”, alguém poderia perguntar. Com Dona Hermione era diferente. Ela mais parecia a chefe de uma seita.

Ruth era uma das que não a engolia. E a recíproca era verdadeira. Enquanto ainda estava em treinamento, a mestra falava sem parar. Talvez estivesse no tópico “Documentos importantes sempre em papel, garotas. Com confidencialidade não se brinca. O digital deixa rastros, o papel não” quando foi traída pelo microfone ao dizer, emburrada, “Tá bom, tia”. Até hoje não sabe por que não foi sumariamente demitida. Talvez o engasgo que simulou tenha dado certo ou era muito bem quista por alguém lá de cima.

Eram 18h07 quando desligou a última chamada do dia. Colocou a roupa de ginástica, calçou o tênis fluorescente e despertou Pandora.

– Playlist Workout. – pediu.

Um avatar idêntico a Ruth, que não era gorda, nem magra, apenas preocupada com a súbita queda de uma antes proeminente retaguarda, apareceu. A instrutora virtual mostrava os exercícios. Não tinha nem começado a segunda rodada quando ouviu passos no andar de cima. Ruth continuou a malhação. Esses passos se multiplicaram e um barulho seco chegou a ser mais alto do que a música dançante da academia videogame.

– Pandora, pare!

O apartamento ficou silencioso de repente, a tranquilidade quebrada apenas pelos metálicos sons voadores lá de fora. Ruth sentiu o sangue bater nas têmporas. Não sabia se era pelos exercícios ou por um abrupto medo que sentiu. Desligou a TV. As figuras virtuais desapareceram, a torneada e a da bunda murcha.

Ruborizada, abriu a janela para tomar um ar. Já era noite. Pensou em como seria ter uma varanda, sentar-se com uma taça de vinho, olhando para o nada, que nem nas séries de TV. Mas a vida real não era assim. A televisão não tinha toque de recolher. Ora bolas, nas séries as pessoas podem até sair na rua.

Bebeu um gole da garrafinha de plástico com o símbolo da King sem perceber as partículas quase microscópicas boiando na água.

 

TERÇA

Virava-se para lá e para cá na cama. Beijo roubado, ciúme, choro, vela de aniversário, parabéns, filha, muito obrigado a todos que me fizeram chegar até aqui, você venceu, embarca amanhã, passaporte, fica calada ou a gente te dá um tiro aqui mesmo. O toque do despertador.

Pandora:

Bom dia, Ruth. Temperatura atual, 19 graus. Hoje é terça, 1º de junho. São 6:40 da manhã. Tempo até a próxima tarefa, 17 minutos

Banho, café, fone. Mais um dia, menos um dia.

Em meio às fofocas de sempre na hora do almoço, foi chamada de volta à Terra.

– Ruth? Tá por aí? – perguntou Débora.

As amigas espreitavam em suas respectivas telinhas, inquisitivas. Natália tinha um pedaço de alface preso no dente.

– Desculpem, viajei aqui. Estou… Deixa para lá. – Ruth, parecendo estar de fato em outro plano.

– Fala ou a gente morre de curiosidade. – disse uma delas, aquela que quase ninguém lembrava o nome.

– Ouvi passos aqui em cima ontem. – explicou Ruth com olhar franzido. Desfez a cara na marra quando viu a ruga do olho direito no reflexo invertido do bate-papo.

– A gente escuta todo tipo de coisa aqui, esses monstros pra cima e pra baixo, credo. – desconversou Marta mordendo um pedaço de bolo de tamanho obsceno.

– Pareciam de gente. – Ruth disse.

– Por que você não pergunta para a Dona Hermione? – sugeriu Clara, muito prática.

– Pra levar um sabão de graça? Não, obrigada. Talvez eles estejam expandindo. Quem sou eu para saber, apenas uma abelha operária. Vou é cuidar da minha vida que é o melhor que faço.

– Um brinde a isso! – brindou Clara com um copo feito de papel.

– Meninas, vou indo, não dormi muito bem, tenho que tomar um café antes de pegar no batente. Até amanhã! – ia apressada enquanto apagava as janelas virtuais manualmente.

Na cozinha embutida não havia escorredor de prato. Abriu o armário debaixo da pia, acionou a tampa da lixeira e acomodou ali o lixo do almoço. Barulho de vácuo. Retocou o batom, sentou-se à mesa, a xícara já vazia, 13h59, login e senha.

– Centro de Desenvolvimento e Pesquisas King Farmacêutica, boa tarde, meu nome é Ruth, como posso ajudar?

Evitou pensar nos barulhos do andar de cima e muito menos no fato de que residia no terceiro e último andar.

Uma ligação às 16h28.

– Eu entendo a preocupação, senhora, mas, como disse anteriormente, o controle sanitário passa por regulações que fogem ao controle da companhia.

O tablet de couro exibia o protocolo 192.3, que ela agora lia em voz alta. O de corujinhas mostrava a sacola de compras de uma delicatessen com queijos, vinhos e outros itens. Barulhos novamente. Parou o discurso.

A idosa com semblante indignado repousava no computador.

– Cadê você, minha filha? – gritou a velhinha.

Ruth estava de pé, tentando captar mais algum som. Escutava a mulher no canto da mente. Voltou em câmera lenta à cadeira. Abaixou-se tateando o chão. Buscava o álcool em gel que tinha derrubado enquanto escalava a mesa de trabalho. A embalagem também carregava a insígnia da King.

– Perdão, senhora Stein, tive uma pequena falha na transmissão. Como eu explicava à senhora, os protocolos de uso são diferentes de grupo para grupo.

Fez-se um estrondo. O computador apagou de repente. Cerca de cinco segundos depois, tudo reiniciou: geladeira, TV, computador, a conexão dos tablets. O sangue nas têmporas. Aquele medo do dia anterior voltando como um tsunami.

BOA TARDE, EU SOU PANDORA, O QUE DESEJA?” – gritou o robô.

– Desejo que você não grite no meu ouvido. – disse Ruth energicamente à caixinha, o coração na boca.

Reinicialização realizada com sucesso”.

Na tela de Ruth, a instrução: INSERIR DRIVE PARA BACKUP.

Checando diretrizes”.

Distraída pela voz de Pandora, Ruth pegou o tablet das corujas ao invés do preto num movimento automático. Aproximou-o do leitor. Nos dois visores, com velocidade epilética, telas azuis, imagens embaralhadas, documentos, fotos. Ao se dar conta do erro, por algum motivo não fez nada. Manteve-se hipnotizada com a profusão de bytes, zeros e uns, em seu computador de trabalho.

Sistema refeito, gerador desligado”.

Tudo parecia como antes. Não mais.

Vinte minutos depois do fim do expediente, deitada na cama, tela em mãos. Victor, o terapeuta, atendeu de pronto.

– Qual a desculpa dessa vez? – perguntou o homem grisalho com cara daqueles médicos de banco de imagens.

– Me distraí. – respondeu a mulher de 34 anos emulando uma adolescente rebelde.

– E então? Como estamos hoje? – disse Victor, à frente de uma estante com lombadas das mais diversas cores. Livros continuavam a ser uma tendência de decoração, mesmo que ninguém mais os lesse no sempre confiável papel.

– Bem.

– Só bem?

– E como poderia estar mais do que bem?

– Ruth – o terapeuta baixou os olhos – não é meu papel dizer o que você deve ou não abordar nas nossas consultas. Só gostaria que você fosse um pouco mais eloquente.

– Desculpe Victor. É que, você sabe, nada muda.

– Isso não é verdade. Você muda. Você muda sempre. Podemos partir daí. – o tom do homem era otimista.

– Sabe. Pensando melhor, aconteceu, sim, alguma coisa nova. Hoje! – enunciou Ruth.

– Ah, sim? O quê? – Victor se arrumava na cadeira.

– Um pico de luz. – sorriu Ruth, com ironia.

– O quê? – Victor dizia sem expressão.

– Isso mesmo. A luz foi embora por alguns segundos, depois voltou.

– Isso, por acaso, é uma metáfora?

– Não sou tão profunda assim. – ela disse, desviando o olhar.

– E os episódios? Controlados? Como anda sua memória? – Victor assumia um tom de voz mais baixo, quase como se contasse um segredo.

Ruth bebeu um gole d’água, aproveitando para ganhar tempo. Mentiu.

– Sim, tudo certo.

O apartamento dela, que Victor não via na tela, estava tão limpo que até se poderia comer no chão como diziam por aí, apesar de ninguém recomendar um piquenique nas atuais conjunturas. A disposição de tudo era um tanto maníaca. O tempo na tela contava decrescente. Consulta terminada.

No banheiro, compacto como o da classe econômica de um navio de cruzeiro, Ruth lavou as mãos. Tirou as roupas, colocando-as em um recipiente idêntico ao que tinha na cozinha, também embaixo da pia, separado do mundo exterior por uma grossa portinhola de metal. Os sapatos desceram junto. Lavou as mãos de novo. Entrou no chuveiro. Deixou a água correr pelo corpo. Os olhos fechados. O barulho caloroso da enxurrada.

Estava prestes a sair quando percebeu um pequeno ponto preto no ladrilho. Quase microscópico de tão pequeno, ele estava localizado entre dois azulejos, azuis, na marca da argamassa. Ruth chegou mais perto, como que para enxergar melhor. Passou o dedo molhado na mancha. Nada. Esfregou novamente, desta vez com mais força. O mesmo resultado frustrado. A voz de Pandora interrompeu o transe com algum chamado qualquer, algo sobre o jantar ou o horário de algum programa de TV.

– Pandora, estou no banho, já te avisei sobre isso. – gritou Ruth, a voz abafada pela água.

Esqueceu-se, então, do ponto na parede.

De pijamas, já na cama, encerrou o capítulo de um livro, mais um, mais um descrevendo lugares onde ela não pode ir, coisas que ela não poderia fazer. E para piorar: o autor era um estreante. Mais uma vez higienizou as mãos com o desinfetante, o do lado da cama sempre com aroma de lavanda.

Enquanto programava a tela em modo soneca, Ruth percebeu, de rabo de olho, um ícone estranho no desktop. Algo que nunca tinha visto antes. Encarou aquele pixel do mesmo jeito que havia feito com o ponto na parede, ora eles até se pareciam – era um quadrado preto, sem nome, sem descrição. Apertou o ícone com a ponta dos dedos. As imagens que haviam invadido seu computador mais cedo, na hora do blecaute, explodiram na tela. Um comando brilhava. PASSWORD:

Fechou o tablet, colocando-o no seu lugar de direito, não sem antes limpar obsessivamente as mãos com o álcool gel da King.

– Boa noite, Pandora. – disse ela, amedrontada.

A luz do apartamento se apagou aos poucos, ritmada, quase como num pôr do sol. Discretamente, pequenos pontos fluorescentes brilharam rapidamente na garrafa d’água, como microscópicos vagalumes.

Boa noite, Ruth”, enunciou Pandora soando terrivelmente humana no quarto escuro.

 

QUARTA

Tem certeza de que quer fazer isso?

Assine aqui.

Mais do que um ato altruísta, é um dever.

Ninguém está acima da lei.

E você vai reclamar pra quem?

Como se perdesse o ar, Ruth acordou. Algo que nunca acontecia, aconteceu: estava atrasada. O sono tão profundo, parecia ter tomado um remédio. Sonhos vívidos em que nada fazia sentido. Aparentemente. Pulou o banho, algo que detestava fazer. Ao menos economizaria um pouco de água. O planeta estaria aí por quanto tempo para lhe dizer obrigado?

Sentada à cadeira, pronta para iniciar o expediente, viu um aviso em vermelho. TREINAMENTO 3 – 08h40. Clicou. Dona Hermione apareceu como um espectro, fazendo-a se engasgar com o café (duplo nesta manhã, cortesia de Pandora).

– Você por acaso se esqueceu de que comidas e bebidas são expressamente proibidas perto dos equipamentos da empresa? – questionou Dona Hermione imediatamente, sem “bom dia”, nem “beijo na boca”.

– Me desculpe, eu… – Ruth sentia o rosto corar com a reprimenda.

– De todas as pessoas que treinei pensei que ao menos VOCÊ, sempre tão metódica, respeitaria isso. – Dona Hermione continuou, fixamente encarando o desinfetante assinalado com o rótulo da King na mesa de Ruth.

A desgraçada sabia como atingi-la.

– Indisciplinas à parte, você não levará um ponto negativo por isso. Digamos que hoje despertei com um humor melhor do que o esperado. – disse a velha empertigada com um risinho mais falso do que nota de três (que, se existisse, não valeria nada: a economia, para variar, estava uma merda).

– Isso é muito gentil da parte da senhora. Obrigada. – Ruth sentia o suor escorrer das axilas.

A prova transcorreu como de costume, alto nível de excelência. A mania atormentava, mas também pagava bem.

– Muito bem. Resultados satisfatórios. Não poderia esperar algo diferente de uma aluna minha. – No fim das contas, Dona Hermione conseguia fazer tudo virar sobre ela. – Porém, não é mais do que a sua obrigação. Da obrigação de todos com a empresa. Continue revisitando nossos guias sempre que possível. O caminho para o fracasso…

– Está paralelo ao caminho do sucesso. Eu me lembro. – Ruth enunciou meio inebriada com o sucesso, meio com vontade de quebrar a tela.

– Aguardo o relatório semanal no dia e horário de sempre. – despediu-se a mulher sem muita paciência.

– Dona Hermione? – Ruth gaguejou – Posso lhe fazer uma pergunta?

– Claro, querida, se eu conseguir respondê-la. – A chefona mudou de tom, chegava até a parecer carinhosa. Ser útil, de qualquer forma, era seu propósito máximo de vida.

– A senhora sabe se há alguma reforma no topo do prédio? Tenho ouvido uns barulhos estranhos. Não temos moradores ali e, pelo que me lembre, nunca… Puxa, me deu um branco. Nem me lembro desde quando moro aqui. – Ruth agia de maneira informal demais.

– Se você anda meio esquecida, devo lembrá-la de que detalhes corriqueiros do funcionamento das instalações competem apenas aos setores necessários. Perguntas inconvenientes geram… – disse a senhora com olhar fixo.

– Geram desconfianças desnecessárias. Disso não esqueci. Bem… – Ruth ensaiou pedir desculpas. De novo. Era uma vida de desculpas.

Hermione a interrompeu.

– A transmissão está encerrada.

Sumiu da tela do mesmo jeito que tinha aparecido.

Ruth reparou que pingava de maneira anormal abaixo dos seios. Trocou de camisa. Enquanto se despia, ouviu passos no andar de cima. E depois silêncio de novo.

Nada mais foi digno de nota aquele dia. Depois de mais uma rodada de exercícios físicos personalizados (o daquela ocasião foi uma constrangedora sessão de salsa em que Ruth improvisou um par abraçando a almofada), preparou-se para um pequeno prazer daqueles tempos: o banho. Antes algo corriqueiro, tinha virado quase uma indulgência.

Não era por causa de momentos como esses que as pessoas não tinham enlouquecido de vez? Cremes para o rosto dos quais não se precisava, ingredientes que prometiam enganar a passagem do tempo, palavras como micropartículas e nanotecnologia para tirar o sebo do cabelo, atingiam uma importância tão grande quanto ganhar na loteria. Se ainda existisse loteria, é claro.

Ruth entrou no banheiro. Lavou as mãos. Entrou no chuveiro. Lavou novamente as mãos. Enquanto escorria o condicionador, virou-se à parede. Foi aí que se lembrou do mesmo ponto preto que havia chamado atenção no dia anterior. Agora, em tamanho, correspondia a uma pequena moeda. A mancha entre um ladrilho e outro englobava dois azulejos azuis. Intrigada, virou a torneira para a esquerda, queria esquentar a água ainda mais. Esperava que assim resolvesse aquele encardido. O jato veio fervendo. Com o susto, Ruth girou a manivela em sentido oposto, recebendo, literalmente, um balde de água fria. Sentiu-se estúpida. Riu do ridículo da situação. Fez uma careta para a mancha. Lidaria com ela depois.

– E você se cuide, hein? – pediu a mãe de Ruth do outro lado da linha.

– Pode deixar. – respondeu ela, presa há pelo menos cinco minutos tentando encerrar a chamada.

– Olha, e se esses barulhos continuarem chame a administração. Você tem que ter sossego, ora essas. Com esse trabalho todo. Quando não tinha essa de “novo normal” a gente tinha compromisso com a propriedade dos outros… – o pai inflava a situação, os dois não se pareciam em nada, muito menos de cabeça.

– Não, pelo amor de Deus, isso de novo, não. – interrompeu Ruth – Vamos manter a paz pelo menos nas despedidas, sim? Eu vou tomar conta disso. Pode não parecer, mas eu sou adulta e funcional. Amo vocês. Vou colocar a próxima chamada na agenda. Me confirmem se ainda estarão disponíveis, ok?

O pai e a mãe de Ruth começaram a falar um por cima do outro, mandando beijos e dando adeus ao mesmo tempo. Ela desligou a chamada da mesma maneira de sempre, a linha tênue entre aliviada e emocionada. Abriu o álbum virtual. Fotos. Ela pequena. Ela em cima de um pônei. Os pais se casando. Os pais em Roma. Ela na formatura. Nenhuma de todos juntos? Já tinha ido a Roma? Sons no andar de cima. Ruth sai do caminho da memória e volta à realidade.

– Pandora, mofo no banheiro. Mofo no chuveiro. Mancha.

Mofo no banheiro: serviços gerais, ramal 28 no app Administração”.

– Tratamento caseiro mofo, Pandora. – insistiu impaciente.

Ramal 28”.

Irritada, Ruth rumou à cozinha. Abriu o armário abaixo da pia, pegou esponja, detergente, um pano. Foi até o banheiro praticamente marchando. Irrompeu a cortina de maneira psicótica. Ajoelhada no chão, encarou a mancha como se ela fosse uma inimiga pessoal, a própria Dona Hermione. Esfregou por minutos a fio. Não lembra quantos. Poderia ter sido até uma hora. Parou quando os dedos sangraram nas pontas. Nada aconteceu. Lavou as mãos. Esqueceu se as tinha lavado. Lavou as mãos. Pensou ter deixado um pedaço delas de fora na limpeza. Lavou as mãos agora até os cotovelos.

Na volta, ao passar pela sala, ligou a TV. Novamente a figura nefasta.

Eu não tenho culpa de que o povo faz o que faz”.

– FILHO DA PUTA! – gritou Ruth para a tela.

Voltou à cama, pegou o tablet de corujinhas. O quadrado preto continuava ali, que nem o ponto na parede. Clicou. Senha?

Fez-se de louca. Digitou 123456.

Senha incorreta.

Apertou C. Depois O. Em seguira V. Apagou tudo.

  1. Não.

Seria a sequência de Fibonacci muito “O código Da Vinci”? Tinha visto esse filme no cinema, não tinha? Mas como? 0, 1, 1, 2, 3, 5. Nada.

Pensou em como a coroa símbolo da King lembrava um PI. Também era boa em decorar as coisas. Capital da Austrália? Canberra. Início do genocídio europeu na América: 12/10/1492. Que dificuldade, no entanto, de recordar a escola. Pi: 3,14. E mais 1, 5, 9, 2, 6… 3, 1, 4, 1, 5, 9.

1, 2, 3, 4 em japonês, ichi, ni, san, chi.

Era boa em decorar.

Pi.

Apertou Enter.

WELCOME.

Tinha entrado.

Havia apenas um diretório no arquivo: Projeto Village. Fincou o dedo na tela de maneira tão vigorosa que quase quebrou a ponta da unha, gasta de tanto lavar a parede do chuveiro.

Pularam imagens com a velocidade impressionante. Parecia até mesmo um vírus, com o perdão da palavra proibida. Documentos, muitos documentos. Ruth pensou ter visto o próprio rosto em meio a uma infinidade de fotografias. Eram fichas de funcionários intercaladas com radiografias, palavras soltas, HEMOGRAMA, FEBRE, ANTICORPOS, EFEITOS COLATERAIS.

Sem mais nem menos, o tablet apagou. Quando ligou novamente, já não tinha o quadrado preto.

Ruth teve uma súbita dor de cabeça. Buscou uma pílula específica junto das outras que tomava diariamente, todas com o rótulo da King, vitamina D para suprir a falta de sol, colágeno para suprir a falta de juventude, multi-função para suprir qualquer que fosse a necessidade. Dentro da cápsula, as partículas.

Fechou os olhos para esperar a dor passar e dormiu quase imediatamente. Caiu num sono tão pesado que mal se mexeu na cama durante a madrugada, nem quando ruídos no andar de cima se intensificaram, nem com as luzes dos aparelhos eletrônicos, que piscavam de tempos em tempos no apartamento escuro, como Poltergeist, muito menos com o distante pinga pinga do chuveiro, aquele mesmo onde ela tinha visto um pequeno ponto preto na parede.

 

QUINTA

Uma casa azul de dois andares.

Aquele nome diferente do seu.

Outra criança.

A fila interminável.

Injeção.

Pandora desfiava a ladainha matinal quando Ruth abriu os olhos, relutante. Sonhos cada vez mais vívidos. A dor de cabeça estava pior do que na noite anterior. Era como se estivesse de ressaca, uma das brabas, mesmo sendo abstêmia. Como ela poderia saber como era uma ressaca se nunca tinha bebido álcool? Fazia mal para a imunidade. Deve ter lido em algum lugar.

– Mais baixo, Pandora, por favor, minha cabeça está explodindo. – sussurrou com a garganta seca.

Dores de cabeça podem ser causadas por inúmeras razões: alimentação, fatores externos, predisposição genética…”.

– Chega, doutora, eu preciso de um café e de uma pílula. Ligar cafeteira. Forte.

Ruth fechou as cortinas à mão, como se vivesse ainda no mundo antigo. A claridade do outono, tão apreciada por ela, parecia demais naquela manhã.

No silêncio sepulcral do apartamento, buscou o remédio, tateando a caixinha de pílulas. Com a escuridão, não percebia as pequenas partículas na garrafa de água com rótulo da King. Eram de fato praticamente imperceptíveis.

Sentada no vaso fazendo xixi, Ruth apagou a luz. Sentia que assim o remédio bateria mais rápido na sua corrente sanguínea.

Escutou um pingo. Logo outro. O som vinha do chuveiro. A pouca luz, que vinha da sala por baixo da porta, o ponto preto da parede parecia espalhado como a raiz de uma árvore. Ruth esqueceu a dor de cabeça e escalou a banheira, ainda de pijamas. Na ponta dos pés encarou o teto. Uma gota de líquido pegajoso e escuro, parecendo piche, caiu nela. Ardia como brasa quente.

Ruth sentiu aquilo se espalhando, entrando nela. Acendeu a luz e a dor passou. Voltou a checar o chuveiro. A mancha continuava ali. Delirava, pero no mucho. Atendeu a primeira chamada com olheiras fundas, ainda desnorteada.

– King Farmacêutica, em que posso servir, me chamo Ruth.

“Estamos te esperando para o almoço!!!”, Natália por mensagem, cada exclamação significando um toque de impaciência.

Ruth respondeu com a mensagem automática “Não posso atender agora”.  Aguardava a vez numa fila virtual, à frente do computador.

Uma voz robótica, como a de Pandora: “Diga a palavra-chave”.

– Vazamento. – respondia pela quinta vez.

Não compreendo esse pedido, chamada desligada”.

– CARALHO! – esbravejou chutando a perna da mesa.

Agora Jonas chamava. Ela o atendeu sem muita paciência.

– Oi, amor.

– Oi. – disse ela em mau estado.

– A gente tinha combinado de se encontrar ontem e você não apareceu. Fiquei preocupado. – ele usava um terno azul escuro, camisa branca, bem alinhado, o pequeno símbolo de coroa bordado na lapela.

– É, Jonas, estava resolvendo coisas mais importantes. – Ruth de supetão, descontando a raiva. Tinha sido grossa à toa, então usou a palavra que mais repetia na vida. – Desculpe. Tive um estresse aqui, estou uma pilha.

– Tudo bem. – Jonas emendou compreensivo. – Mas continuo preocupado. Você está parecendo meio abatida.

– Tenho tido problemas para dormir. Ainda por cima descobri um vazamento aqui em casa. Parece uma reforma no telhado.

– Estranho. – interessou-se Jonas. – Bom, posso tentar descobrir aqui com alguém o que está acontecendo. Só que você sabe como eles são. – propôs.

– Jonas, não fale isso nem de brincadeira. Você sabe das regras e… olha. Viu? Deu um branco. Agora ando assim. Acordo sem saber onde estou, quem sou.

– Normal. Falha na Matrix. – riu Jonas. – Por falar nisso, pode ser nosso filme de domingo.

– Já não basta a nossa realidade? – Ruth encontrava-se apática.

– Vou ver o que posso fazer sobre a manutenção. – Jonas ficou sério.

Continuaram de papo furado até voltarem aos expedientes.

Quando tinha assistido àquele filme?

“Sou uma mulher forte”, disse Ruth si mesma ao entrar no banho numa repetição frenética, primeiro em voz alta, depois murmurando. Victor ficaria orgulhoso.

Distanciou-se o máximo possível da parede onde a mancha crescia. Com o cabelo cheio de espuma, teve uma impressão esquisita. A água do banho tinha se tornado da cor de petróleo, ardia como ácido. Ruth gritou, derretendo. Quando deu por si, estava deitada. O chuveiro continuava funcionando. A água transparente.

Saiu correndo, colocou o roupão. Em desespero, fechou a porta do banheiro. Ligou para Victor, que não atendeu. Uma mensagem automática respondeu EM SESSÃO. Naquele dia o expediente de Jonas ia até mais tarde, comunicações externas não eram permitidas. Não queria preocupar os pais. Pegou mais uma água da King, não reparando nas partículas. Tomou dois remédios para dor de cabeça, acompanhados das vitaminas diárias. Ligou a TV para se distrair, veio a figura nefasta. Desligou.

– Pandora, me ajude a dormir.

Um som artificial de chuva invadiu o quarto. A luz ficou azul, a temperatura baixou, as cortinas se fecharam. Na escuridão da noite, o som metálico das aves silenciava.

 

SEXTA

Seu próprio rosto ia desvanecendo, como uma velha fotografia.

Veio o despertador.

Ruth despertou como uma morta-viva. Tinha sede.

– Café. – pediu a Pandora.

Café forte”.

Bebeu.

As partículas.

Com as pupilas dilatadas, abriu o armário embaixo da pia da cozinha.

Entrou no banheiro, puxou a cortina.

Dentro do box, coberto pela mancha que lembrava limo, meteu o enorme martelo na parede.

O líquido preto e gosmento foi expelido de uma só vez, como pus escapando de uma infecção.

Nada.

Ruth estava no chão, morta.

Seu maxilar despregado da boca, quebrado.

Os olhos vidrados, brancos.

O líquido voltou ao encanamento como se tivesse vida própria.

As partículas.

Na casa toda, os eletrônicos piscavam.

Barulhos de obra recomeçaram.

Fim do ciclo.

 

SÁBADO

O grupo estava disposto de maneira formal. Parecia uma reunião de autoridades importantes. Era o caso.

A mulher conhecida por Dona Hermione encabeçava o círculo.

– Passemos, então, ao relatório 237-129, Ruth B., outono, período maio/junho. – disse com os olhos nos papéis.

Papéis eram importantes, não deixavam traços se eliminados corretamente.

– Com a palavra, Doutor Hans, subcoordenador geral do Projeto Village. – apontou ao homem grisalho, cercado por um quadrado de acrílico, isolado, assim como todos os outros membros daquela convenção.

Victor, ou melhor, o Doutor Hans Liebenstein, abriu a pasta de couro com a bandeira do país desenhada na capa. Abaixo da flâmula, o slogan: “LUTAMOS POR VOCÊS”.

– Sem grandes novidades. Episódios maníacos. A substância parece de acordo com os últimos estudos. O uso dos nano robôs infiltrados comprova a suscetibilidade do vírus aos agentes externos. – disse quase sem entusiasmo.

À volta dele estavam os pais de Ruth, seu namorado, Jonas, as colegas de trabalho da hora do almoço. Todos mantinham o ar formal, tinham as mesmas pastas, as mesmas bandeiras, o mesmo slogan, o mesmo relatório.

– A questão é que, desta vez, a quantidade ministrada diariamente pareceu alta demais, devemos talvez diminuir as doses em 25% para a próxima rodada.

– E a história do vazamento? O barulho de obra? – Hermione, também de roupa da King, parecendo anos mais jovem.

– Efeitos colaterais. Neurose agravada.

Jonas, na verdade o Capitão Lucas, comentou com a amiga Natália, a geneticista Alberta.

– Sentirei falta dela. – disse baixinho.

A mulher mostrou-se insensível.

– Da próxima vez peça para interpretar o psiquiatra. – disse sem ao menos olhar para a foto de Ruth B.

Dona Hermione pediu silêncio.

– Senhor Garcia. – referiu-se a chefona ao “pai” de Ruth – acredito que não preciso nem dizer que a falha inadmissível na segurança quase colocou tudo a perder. Aqueles documentos não poderiam ter chegado aonde chegaram. O senhor imagina o que aconteceria se isso vazasse?

Marta, a general Shephard, fez coro.

– Pode-se dizer é uma questão de segurança nacional. Como isso será solucionado para os próximos testes?

– Senhoras, eu sinto muito. Algo na composição do chip implantado na cobaia interferiu nas ondas sensoriais do equipamento. Teci um completo e extenso relatório. Estamos, felizmente, na margem de erros. – respondeu ele, vermelho como a filha que nunca teve.

– Continuemos. Causa da morte: eliminação. Semana 44. – Dona Hermione passou a novos papéis.

Os membros da reunião jogaram os documentos em um compartimento. Eles foram retalhados e desapareceram com o barulho de vácuo.

– Podem revelar a ficha.

Todos encararam o rosto de outra mulher no papel. Não a conheciam.

SEGUNDA

Hoje é segunda-feira, 5 de junho. Temperatura, 20 graus

As cortinas se abriam automaticamente. A moça do retrato abriu os olhos, ainda sonolenta. Não tinha sonhado. Ou, pelo menos, não se lembrava. Ainda.

Bom dia, Ruth”, disse Pandora.

Ela se levanta, entra no banheiro sem manchas no chuveiro, novo em folha, fecha a porta. O apartamento mantinha-se o mesmo, a decoração praticamente idêntica. Na mesa da sala, um tablet com padrão xadrez. Ao lado, um de couro, da King Farmacêutica.

O cômodo enchia-se aos poucos de luz.

Lá fora, o som metálico das aves, drones que sobrevoavam para lá e para cá.

Afastados dos condomínios da King, pessoas de máscara e luvas caminhavam distantes alguns metros entre si. Entravam nos metrôs fantasmagóricos. Seguiam a vida.

Tudo estava mais vazio, como antigamente na época das férias.

A população mundial tinha caído à metade.

Os estudos continuavam.

De tempos em tempos, vizinhos, primos, parentes, pessoas desapareciam.

A explicação oficial eram testes científicos, tudo em nome da cura.

Ninguém contestava.

A história de cada um não importava mais.

O mundo deixou de ser o que um dia havia sido.

Estávamos em 2079, ano da 36ª mutação do vírus.


Arthur H. Herdy

10 de dezembro de 2020